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O Brasil enfrenta desafios significativos para transformar sua produção científica em valor econômico, perdendo talentos e oportunidades. O capital de risco em Deep Tech, que combina retorno financeiro e impacto social, é uma área em crescimento globalmente, mas o Brasil ainda investe apenas 1,19% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, muito abaixo de países como Israel e EUA. A burocracia e a insegurança jurídica dificultam a transição de pesquisas acadêmicas para negócios, como exemplificado pela Pluricell Biotech, que não conseguiu capital suficiente. Iniciativas como o Deep Tech Summit estão surgindo para conectar pesquisa e capital, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O Brasil possui recursos naturais e cientistas, mas precisa de políticas públicas eficazes e investimento em capital paciente para gerar inovações significativas, ou “Moonshots”.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Guy Perelmuter, gestor do mais tradicional fund of funds de deep tech no Brasil, o GRIDS Capital, resume o espírito do capital de risco em uma sentença: “Deep Tech é o único lugar onde o retorno financeiro e o impacto civilizatório caminham juntos.”
A frase é boa porque é exata. Um país no qual não existem incentivos para que suas Universidades se tornem “berços de negócios” que alavancam seus ativos naturais, perde simultaneamente em várias dimensões: perde dinheiro, cérebros e futuro. O Brasil está perdendo em todas.
Este mês estive em Zurique com diversos empreendedores de biotech. Entre vários tópicos, comemoravam o IPO de uma empresa de oncologia, cujo fundador me disse: “agora vou buscar US$ 2 bilhões para começar um novo negócio. Quero resolver um problema considerado impossível, pois só assim vou na busca de fazer um Moonshot.”
Reconheci ali, no seu olhar, a força da capacidade do ser humano de achar soluções. Experimentei esse espírito no início da internet nos anos 90, quando parecia que “tudo que era sólido desmanchava no ar”, e surgiram fenômenos como Mercado Livre e Amazon, só para citar o segmento em que eu operava. Esse é o “espírito” que habita os hubs de tecnologia dos países mais desenvolvidos.
Em uma década, o percentual de venture capital global investido em Deep Techs – empresas que atuam com tecnologias científicas “de ponta” – passou de 10% para 20% do volume total de recursos. Em 2021, entraram US$ 160 bilhões no setor, que até 2030 deve atrair trilhões de dólares, segundo projeções de analistas.
Há uma corrida tecnológica em curso e três polos a lideram: os EUA, com DARPA, MIT e outros; a China, com capital de Estado e velocidade industrial; e a Europa, tentando “ficar no jogo”, com regulação própria unida às suas instituições de pesquisas.
Essa corrida tecnológica já deixou de ser exclusividade do capital de risco privado e chegou ao mercado de companhias abertas. Em 2026, no difícil mercado público ou de SPACs dos EUA, os temas que mais despertam interesse incluem “Deep Techs” de defesa, baterias, biotech e exploração espacial, mesmo que as empresas se encontrem em estágios bem iniciais de operação.
O Brasil abriga cerca de 20% de todas as espécies conhecidas do planeta. Juntos, a Amazônia e o Cerrado concentram o maior repositório de compostos bioativos do mundo, com aplicações diretas em biotech, farmacologia, novos materiais e defensivos agrícolas. Complementando o quadro, no subsolo brasileiro encontra-se a segunda maior reserva de terras raras do planeta, um material crítico para baterias de nova geração e supercondutores.
Enquanto o Brasil debate marcos regulatórios, outros países agem rápido. A China, nos últimos 15 anos, estruturou políticas sistemáticas que permitem transformar biodiversidade em propriedade intelectual, com bioprospecção integrada à agenda industrial.
O Brasil aprovou a Lei 13.123/2015 com o objetivo de disciplinar o acesso ao patrimônio genético. Porém, a burocracia, a insegurança jurídica para pesquisadores, assim como a dificuldade de operacionalização dessa Lei por startups, não permite que a mesma se torne uma alavanca para o desenvolvimento.
Segundo estudo de 2025 do CPI/PUC-Rio e Amazônia 2030, coordenado por Juliano Assunção e Beto Veríssimo, se o Plano Nacional de Desenvolvimento de Bioeconomia (PNDBio), por exemplo, for implementado com seriedade, estima-se que, em 30 anos, até US$ 784 bilhões possam ser gerados via restauração de carbono pelo mecanismo RDM (Mecanismo de Reversão do Desmatamento). O potencial existe. O que falta é política pública funcionando.
A ciência brasileira, apesar dos pesares, desenvolve pesquisas, mas licencia pouco. Nos casos em que tais pesquisas tentam sair da academia para se transformarem em negócios, encontram dificuldades.
Um exemplo disso, é a Pluricell Biotech, pioneira na área de medicina regenerativa. Criada em 2014 por pesquisadores da USP, passou quase uma década transformando pesquisa acadêmica em terapias celulares e encerrou suas atividades sem conseguir capital suficiente para chegar ao mercado.
Em 2019, recebeu US$ 1 milhão da empresa farmacêutica Libbs para seu programa de medicina regenerativa e, em 2021, mais R$ 2 milhões de investidores privados. Apesar dos avanços científicos e das parcerias, os recursos não foram suficientes para sustentar o longo ciclo de desenvolvimento de produtos típicos do setor.
O Brasil investe 1,19% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, muito abaixo dos 4,9% e 3,45% investidos respectivamente por Israel e EUA. A evasão de talentos persiste como variável estrutural e o capital “paciente”, aquele disposto a atravessar o longo ciclo de 5 a 15 anos que separa o laboratório do mercado, sem exigir liquidez prematura, permanece escasso.
Fundos como SP Ventures, Pitanga, KPTL e Fundepar constroem presença relevante, mas o volume agregado ainda está distante do necessário para absorver o pipeline científico existente.
Esse problema demanda cada vez mais iniciativas no Brasil que promovam o ponto de contato entre a pesquisa brasileira e o capital “paciente”. Não é rara a realização de eventos com esse objetivo em países desenvolvidos, como França, Finlândia e Estados Unidos.
No Brasil, o Deep Tech Summit, criado pela Emerge no Complexo Inova USP, ganhou escala e aos poucos tem cumprido esse papel. A próxima edição no mês de agosto prevê cerca de 2,5 mil participantes contra apenas 450 pessoas em 2023, alçando o evento no terceiro maior do mundo voltado para deep techs, atrás apenas do Hello Tomorrow Global Summit, em Amsterdam, que reuniu 3,2 mil participantes na última edição, e do Deep Tech Momentum, em Berlim, com 3 mil.
Um evento brasileiro competindo nessa liga não é acidente. Fomentar iniciativas do gênero pode ser um indicador de que é possível transformar o Brasil que só produz ciência em um Brasil que converte ciência em valor econômico. O Brasil tem os cientistas e tem os recursos naturais. Falta apostar que podemos gerar Moonshots.
Fersen Lambranho é co-presidente do Conselho de Administração da GP Investimentos e presidente do Conselho de administração da G2D Investments




