Bloomberg — Com seu terno azul-marinho, gravata e corte de cabelo típico da Ivy League, Chris Hogbin pouco se parece com os empreendedores de tecnologia que vêm transformando o mundo com a inteligência artificial. Ainda assim, em um sinal dos tempos, um de seus primeiros atos como CEO da Lazard foi nomear um chefe para a área de IA.
Depois de duas décadas na rival AllianceBernstein, onde ocupou mais recentemente o cargo de diretor global de investimentos, Hogbin assumiu o comando da gestora de recursos da Lazard em um momento em que a inteligência artificial impulsiona Wall Street rumo ao que pode ser sua maior transformação de todos os tempos.
O executivo inglês de 52 anos conseguiu seu primeiro emprego no mercado financeiro na década de 1990 e há anos desejava liderar uma empresa de gestão de investimentos.
“Estamos vivendo um momento de mudanças profundas”, diz Hogbin em uma entrevista recente à Bloomberg News — a primeira desde que assumiu o cargo de CEO — em seu escritório no 58º andar do Rockefeller Center, enquanto toma um chá Mint Majesty Tea tamanho venti, da Starbucks.
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Desde que chegou à empresa, há sete meses, Hogbin nomeou o primeiro diretor de investimentos da história da Lazard, Eric Van Nostrand, ex-integrante do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que, entre outras iniciativas, criou reuniões semanais para incentivar gestores de portfólio e suas equipes a romper barreiras entre áreas e trocar informações.
Hogbin também escolheu uma nova diretora de operações, Rosalie Berman, ex-executiva do Morgan Stanley, e conduz processos de recrutamento para os cargos de diretor global de produtos e de desenvolvimento corporativo.
Como qualquer executivo à frente de uma gestora, Hogbin afirma que sua prioridade é expandir a empresa e entregar aos clientes os melhores retornos possíveis.
Mas ele também precisa lidar com desafios específicos de assumir um cargo como esse em 2026, como acompanhar quantos tokens os funcionários consomem em tarefas envolvendo inteligência artificial.
“Para ser sincero, eu estava um pouco preocupado por não estarmos usando a tecnologia o suficiente”, afirma Hogbin, ao observar que vê a IA como peça-chave de sua visão para o futuro da gestora.
“Tínhamos alguns superusuários, enquanto muita gente ainda estava esperando.”
Às 10h, a cada duas sextas-feiras, a Lazard promove o que Hogbin chama de uma reunião de “show and tell”: um encontro com toda a empresa em que funcionários compartilham como estão usando inteligência artificial no trabalho.
Normalmente, cerca de 400 empregados participam da chamada — aproximadamente um terço do quadro da gestora — em diferentes escritórios e fusos horários.
Para satisfação de Hogbin, alguns profissionais que estão na Ásia entram na reunião perto da meia-noite, no horário local, de uma sexta-feira.
A Lazard também enfrentou sua cota de dificuldades, como parte de um setor que há anos sofre com resgates de recursos por parte dos clientes, embora tenha registrado captações líquidas nos últimos trimestres.
A gestora informou que os clientes retiraram US$ 1,4 bilhão em maio, e as ações da controladora caíram quase 13% no dia em que a informação foi divulgada.
Para Hogbin, o desempenho dos investimentos continua sendo prioridade.
“Encontrei capacidades de investimento muito fortes, mas o desempenho não entregava resultados consistentes para os clientes”, afirma.
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A Lazard, gestora de fundos criada em 1970 pelo banco de investimentos Lazard, tradicionalmente concentra sua atuação em estratégias de gestão ativa, com destaque para mercados emergentes.
O CEO do banco, Peter Orszag, que dirigiu o Escritório de Gestão e Orçamento da Casa Branca durante o governo de Barack Obama, declarou no ano passado sua intenção de expandir essa divisão dos negócios, apesar das dificuldades enfrentadas pela indústria de gestão ativa nos últimos anos. Ele identificou Hogbin como o nome certo para liderar esse projeto.
Depois de uma série de conversas e reuniões, Hogbin aceitou o convite no verão do ano passado e assumiu oficialmente o cargo no fim de 2025.
Na gestora, a inteligência artificial é usada para reduzir tarefas rotineiras, auxiliar na comunicação com clientes e apoiar a preparação de investimentos.
Mas também há espaço para experimentação: a empresa utiliza seus próprios dados históricos para tentar desenvolver agentes de IA capazes de trazer novas perspectivas às discussões.
No futuro, os analistas poderão dedicar mais tempo à reflexão estratégica e menos à coleta de informações — uma tarefa que a IA consegue realizar.
“Os analistas passam muito tempo reunindo dados, menos tempo analisando essas informações e menos ainda refletindo sobre elas”, diz Hogbin. “No fim das contas, a inteligência artificial permite inverter completamente essa lógica.”
Embora não acredite que agentes de IA substituirão pessoas, Hogbin afirma que pode haver uma redistribuição de recursos e ganhos de eficiência em funções corporativas.
Em relação ao desempenho dos investimentos da Lazard, Hogbin afirma que pretende manter o foco nas áreas em que os fundos de gestão ativa da casa podem ter vantagem competitiva: segmentos em que a informação é imperfeita e o entendimento sobre política, regulação e contexto local pode fazer diferença. (A Lazard conta com uma ampla equipe dedicada à geopolítica.)
Ele também pretende ampliar a oferta de estratégias de renda fixa e investimentos alternativos, áreas em que a empresa ainda tem presença limitada, além de expandir o negócio de gestão de patrimônio, hoje pequeno e concentrado principalmente na França.
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Hogbin cresceu em Amersham, no condado de Buckinghamshire, uma pequena cidade nos arredores de Londres, e é formado pela Universidade de Cambridge e pela Harvard Business School.
Depois de viver em Londres, Hong Kong e São Francisco, mudou-se para Nova York em 2018 com a esposa e os filhos e se tornou cidadão americano no início deste ano.
Ele parece ter se adaptado bem à cidade que adotou como lar, acompanhando as finais da NBA no Madison Square Garden enquanto o New York Knicks caminhava para seu primeiro título em 53 anos. Nos jogos da equipe, fez alguns encontros curiosos — embora de uma forma que os nova-iorquinos considerem uma quebra da etiqueta em relação às celebridades.
Enquanto percorre as fotos no celular, Hogbin mostra uma sequência de imagens registradas durante uma partida em 2025. Em uma delas, aparece com o braço sobre os ombros do cineasta Spike Lee. Em outra, o ator Ben Stiller sorri de forma divertida para a câmera a partir de seu assento na primeira fila da quadra.
“Fui até ele e disse: ‘Sou um grande fã’”, conta Hogbin. “E ele respondeu: ‘Cara, senta aí. O que você está achando do jogo?’”
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