A Camil queimou mais caixa do que o esperado no primeiro trimestre de seu ano fiscal — que vai até fevereiro —, o que contribuiu para um aumento na alavancagem e uma piora na percepção de risco dos investidores. Nesta quarta-feira, as ações da empresa caíram 18%.
Apesar do consumo de capital de giro ser usualmente elevado nos primeiros meses do ano por causa da formação de estoques, a queima de caixa superou as expectativas, totalizando R$ 1,1 bilhão.
Antes da divulgação dos resultados, os analistas da XP Investimentos esperavam uma queima menor, de R$ 854 milhões.
A empresa também teve um aumento relevante nas despesas com vendas, gerais e administrativas entre março e maio, devido principalmente a maiores custos de frete, o que acabou afetando as margens e o resultado operacional — também prejudicado por preços mais baixos, apesar de volumes maiores.
Como consequência, a alavancagem da Camil avançou para 4,7 vezes ao final de maio, ante 3,2 vezes no trimestre anterior, encerrado em fevereiro. A relação entre dívida líquida e Ebitda também foi superior ao registrado no mesmo intervalo do ano passado (4,1 vezes).
“Mesmo em um período em que se espera um aumento de alavancagem, o cenário é de alavancagem alta com juros elevados. Essa dívida tem um custo razoável e está muito dependente de variáveis externas”, disse Leonardo Alencar, analista da XP Investimentos.
“O ritmo de desalavancagem parece cada vez mais dependente de uma recuperação dos preços do arroz no segundo semestre”, completou o analista.
O benefício do preço alto
Ao formar estoques com o arroz nas mínimas — no balanço, a linha de estoques saltou de R$ 2,1 bilhões em 28 de fevereiro para R$ 3 bilhões em 30 de maio —, a Camil poderá aproveitar a recuperação dos preços do cereal.
Além disso, os preços mais altos de venda ajudam a diluir o SG&A (despesas com vendas, gerais e administrativas), que no primeiro trimestre atingiu 20% da receita líquida — o maior percentual em pelo menos cinco anos.
A tese é compartilhada por Luciano Quartiero, CEO da Camil, e pelos principais analistas que cobrem o papel.
Com os preços do arroz atualmente abaixo dos custos de produção e uma restrição de crédito, a área plantada com o cereal deve cair novamente na próxima safra, afirmou Quartiero, em call com analistas nesta manhã.
O empresário lembrou, inclusive, que essa tendência não é uma exclusividade do Brasil, mas também é vista em países vizinhos onde a Camil produz arroz — o Paraguai é o mais relevante.
A variável clima também tem um peso mais significativo este ano, devido ao fenômeno El Niño, que, ao provocar chuvas acima da média no Sul do Brasil, pode levar a uma queda na produtividade. Com uma menor oferta do cereal, os preços do arroz devem subir, o que tende a beneficiar a rentabilidade do negócio, disse o CEO.
Embora tenha evitado fornecer um guidance para o preço do arroz, o executivo disse que uma boa referência seria olhar para anos anteriores, quando os preços chegaram a R$ 80, R$ 90 ou até R$ 100 a saca. Atualmente, o preço ao produtor está em R$ 63, abaixo do custo de produção, estimado em cerca de R$ 70.
É daí que vem a confiança na queda da alavancagem nos próximos meses. Durante a teleconferência, os executivos da Camil reafirmaram a confiança de cumprimento do covenant de alavancagem ao final do ano-fiscal (em fevereiro de 2027), que precisa estar abaixo de 4 vezes para evitar o vencimento automático das dívidas.
Nas contas dos analistas do BTG Pactual, uma recuperação nos preços do arroz ao patamar de R$ 80 por saca poderia levar o lucro líquido da empresa a quase dobrar até 2027, o que justificaria a recomendação do banco de compra para as ações.
Mesmo diante do cenário desafiador, o Bradesco BBI também manteve a recomendação de compra para a Camil. “Vemos uma assimetria claramente positiva para os preços do arroz no ano fiscal de 2027, já que a área plantada no Brasil deve continuar diminuindo, o El Niño representa um risco relevante de queda na produtividade, e os preços internacionais do arroz já começaram a subir”, escreveram os analistas Henrique Brustolin e Giovanni D’Ottaviano, do Bradesco BBI, em relatório.
Nesta quarta-feira, as ações da Camil fecharam em queda de 18% na B3, a R$ 4,41. Apesar das preocupações com a maior alavancagem, o analista da XP lembrou que as ações da Camil haviam apresentado uma alta relevante nos últimos meses, chegando a R$ 7,10 em abril, o que pode ter incentivado alguns ajustes de posição após a divulgação do balanço.
Quando fez o IPO, em 2017, a Camil estreou na bolsa valendo quase R$ 3,7 bilhões. Desde então, o valor de mercado da companhia da família Quartiero caiu 50,1%, em termos nominais. Hoje, a Camil está avaliada em R$ 1,84 bilhão.




