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Após enfrentar a Covid-19, Dimas Covas quer trazer uma fábrica de vacinas da Sinovac. Mas não será fácil

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À frente do Instituto Butantan, durante a chegada da primeira vacina contra a Covid-19 ao Brasil, em 2020, Dimas Covas agora enfrenta um novo desafio. Desde o ano passado, como cientista-líder da chinesa Sinovac, ele trabalha para viabilizar um investimento de US$ 100 milhões da empresa em plataformas de vacinas no país — uma missão que, segundo ele, não será simples.

A farmacêutica chegou ao mercado brasileiro no auge da pandemia, com uma parceria firmada com a instituição paulista, que resultou na Coronavac. Mas a falta de uma política eficaz de desenvolvimento industrial fez com que esse avanço não se transformasse em uma plataforma permanente de produção de imunizantes.

Hoje, a saúde brasileira segue dependente de insumos vindos do exterior, especialmente da Ásia. Tanto é que, até agora, o Brasil não tem nenhuma vacina própria contra o coronavírus.

“Ainda estamos na mesma situação de vulnerabilidade. Ainda não temos uma indústria consolidada na área de vacinas, a ponto de responder rapidamente a uma nova pandemia”, diz Covas, em entrevista ao NeoFeed.

Segundo ele, o problema não é necessariamente falta de recursos, mas sim falta de infraestrutura necessária e de mão de obra especializada para absorver as novas tecnologias. E, neste momento, o Brasil não está preparado para receber a porta proposta pela Sinovac.

“A gente precisa formar gente capaz de atuar nesta área, engenheiros técnicos em construções de indústrias farmacêuticas avançadas. O país precisa se preparar para receber estes investimentos”, afirma.

De qualquer forma, a companhia já tem uma parceria com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) para transferência de tecnologia e produção nacional de vacinas contra varicela e raiva humana no prazo máximo de 10 anos. Mas ainda há grandes gargalos por parte da instituição.

Para Covas, o movimento antivacinas, fortalecido durante a pandemia, permanece como um dos grandes desafios da saúde pública, e que deixou marcas na política nacional de imunização.

“É uma batalha difícil. Vejo pessoas não dando mais importância à vacinação de seus filhos. Há um anticientificismo. É negar fatos científicos comprovados há mais de um século”, critica. “A maior luta da humanidade é a ignorância contra a sabedoria.”

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Em setembro, o senhor completa um ano à frente da área de pesquisa e inovação da Sinovac no Brasil. Qual é a grande diferença em relação à atuação no Butantan?
O Butantan e a Sinovac são diferentes na natureza, mas, na essência, são muito parecidos. As vacinas representam o principal negócio do instituto — e da Sinovac também. É uma multinacional chinesa de alta tecnologia, presente em mais de 60 países. A dimensão e a estratégia são diferentes. Agora eu olho para o mundo. A Sinovac enxerga a América Latina como uma das regiões mais importantes de sua estratégia de negócios.

A partir dessa visão mais ampla, o Brasil está muito atrasado?
O Brasil é muito dependente da produção externa. Embora as novas vacinas cheguem aqui relativamente ao mesmo tempo em que são usadas nos países mais desenvolvidos, nossa autonomia é muito limitada. Mais de 90% dos produtos farmacêuticos complexos, incluindo as vacinas, são produzidos no exterior. É uma dependência múltipla. China e Índia têm uma presença importante neste sentido.

Além da dependência externa, o acesso a esses produtos também é um problema?
Eles são eficientes, mas muitos têm preços proibitivos. Acabam restritos a quem pode pagar, a quem tem plano de saúde. Isso mostra que o Brasil não está muito bem na fita.

E por que chegamos a esta situação?
Hoje temos um déficit na balança comercial de US$ 20 bilhões por ano com insumos farmacêuticos, incluindo vacinas. Isso vem acontecendo ao longo de décadas e faz parte de um processo mais amplo de desindustrialização. O Brasil já contou com 30% do PIB representado pela produção industrial. Hoje está em torno de 10%.

A dependência tende a aumentar à medida que a tecnologia avança?
Quanto mais a tecnologia se desenvolve e fica mais complexa, maior é a dependência. Os instrumentos de política que que temos usado não têm se mostrado suficientes para encurtar esta distância.

“O Brasil é o 13º do mundo em produção de artigos acadêmicos, mas, em inovação é o 52º” 

O que precisa ser feito para mudar esse cenário?
A grande questão é transformar o conhecimento em produto. Esse é o grande dilema. O Brasil é o 13º do mundo em produção de artigos acadêmicos, mas, quando a gente olha o índice de inovação, da transformação deste conhecimento, o país é o 52º. Há uma diferença muito grande entre a produção do conhecimento e a transformação em ativos para o país. Este é um grande gargalo.

Falta dinheiro para que o Brasil avance neste sentido?
Não é uma questão de recursos. Há três anos, houve o descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que colocou cerca de R$ 30 bilhões em circulação.

Então, qual é o principal desafio?
A questão é como transformar esses recursos em investimento produtivo, em apoio à indústria brasileira de novas tecnologias em fármacos e vacinas. China, Coreia do Sul e Japão têm feito isso há 20 ou 30 anos. A questão é aplicar a política correta, baseada em exemplos mundiais de sucesso. O Brasil precisa olhar mais para os seus iguais em iniciativas que estão dando certo. Não adianta sonharmos em ser americanos ou europeus. Nós não somos. Precisamos nos espelhar nos países mais parecidos. A China é um bom exemplo. Hoje eles são a fábrica do mundo.

O Brasil não aprendeu nada com a Covid-19?
Poderíamos ter aprendido mais. Ainda estamos na mesma situação de vulnerabilidade. Ainda não temos uma indústria consolidada na área de vacinas, a ponto de responder rapidamente a uma nova pandemia. Muitas medidas foram tomadas, mas poucas ações foram de fato empreendidas. A pandemia foi uma catástrofe, todo mundo foi impactado, mas, quando ela foi controlada, a preocupação sumiu. E muitas das políticas públicas ficaram em segundo plano.

“A pandemia foi uma catástrofe, todo mundo foi impactado, mas, quando ela foi controlada, a preocupação sumiu”

A Sinovac pode ajudar a reverter esse quadro?
Essa é uma das ações da empresa, contribuir para diminuir essa vulnerabilidade. A Sinovac quer fazer o desenvolvimento de capacidade tecnológica e produtiva local. É isso que vai preparar o país para novos desafios. Temos disposição para um ciclo de investimentos de US$ 100 milhões. A questão é que o Brasil precisa estar preparado para receber esses recursos.

E como o Brasil pode se preparar?
A questão não é dinheiro. É necessidade de infraestrutura. Para se preparar, o Brasil precisa investir pesadamente na formação de pessoas. Gente capaz de atuar nesta área, engenheiros especializados em construções de indústrias farmacêuticas avançadas. Isso é muito diferente do que as grandes multinacionais têm feito no Brasil. O país tem de fazer sua parte.

O que mais é necessário?
Além de gente, instituições. A Sinovac tem duas parcerias com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) para transferência de tecnologia e produção nacional de vacinas. E o instituto precisa se preparar para receber esta tecnologia. É a mesma situação do Butantan há alguns anos, com uma enorme dificuldade em incorporar tecnologia no país.

Como outros países conseguiram superar esse desafio?
Há 30 ou 40 anos, China e Coreia eram economicamente inferiores ao Brasil. E eles conseguiram um movimento para treinar as pessoas, mandar para o exterior. Fizeram acordos com as companhias para que desenvolvam os recursos humanos. E isso foi o responsável pelo momento atual. É uma política de Estado. Não pode ser revertida da noite para o dia.

“A Sinovac não vai construir uma indústria por aqui e trazer chineses para trabalhar. Esse é um processo que demanda disposição na formação de pessoas”

Isso coloca em risco os investimentos da Sinovac no Brasil?
A Sinovac não vai construir uma indústria por aqui e trazer chineses para trabalhar. Esse é um processo que demanda disposição na formação de pessoas. A ideia não é apenas construir uma fábrica, e sim uma plataforma tecnológica para absorver novas tecnologias. Se não for assim, o ciclo da dependência se repete. É preciso trazer as vacinas, mas também entender como elas são desenvolvidas.

Para quando é a construção da fábrica no Paraná?
O acordo com o Instituto do Paraná é para produzir duas vacinas, uma para varicela e outra para raiva humana. O prazo formal para montar esta plataforma é de dez anos, mas eu acho excessivo. Penso em velocidade chinesa. O esforço é para fazer mais rápido. A Sinovac está preparada. O gargalo é sempre do lado das instituições, principalmente as públicas. Os recursos são para o projeto total.

Hoje a Sinovac está no Brasil com quais produtos?
O Brasil já usou a vacina da hepatite A e, obviamente, o caso inicial, a Coronavac, que marcou a chegada da Sinovac no Brasil. A vacina da varicela importada hoje está no SUS. E a da raiva humana deve entrar no mercado em 2027.

“A maior luta da humanidade é a ignorância contra a sabedoria”

Por que, até agora, passados seis anos desde o auge da Covid-19, o Brasil ainda não tem uma vacina nacional?
A Coronavac foi uma excelente vacina. Ela estava pronta para avançar no território nacional e entrar em produção, quando houve descontinuidade das compras por parte do governo federal [na gestão de Jair Bolsonaro].

E por que outras tecnologias também não avançaram?
O mesmo ocorreu com outras vacinas, com tecnologias que estavam sendo tranferidas. Foi o caso da AstraZeneca, que tinha uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, e da russa Sputnik [com a farmacêutica União Química]. Não sei por quais motivos essas tecnologias foram consideradas não eficientes, o que não era verdade. Optou-se por uma importada, que dominou o mercado e era mais cara [a da Pfizer]. São escolhas que o país faz.

Os movimentos antivacinas, que ganharam força na pandemia, ainda afetam a política de imunização no Brasil?
Sim. Houve uma questão que acabou gerando preferência da própria população sobre uma determinada vacina. Não é o percentual de eficiência que diz respeito à proteção. Isso aconteceu muito e passou até a existência do gourmet de vacina. Lembro bem disso. As pessoas foram aos centros de vacinação e escolheram as vacinas. Isso ainda tem causado muita dificuldade nas coberturas vacinais.

Estamos mais vulneráveis ​​a doenças que já foram controladas?
Voltamos a ficar expostos. A população não está se vacinando no percentual necessário. Isso acontece no Brasil, mas também nos Estados Unidos. Lá a política mudou muito. Algumas vacinas nos Estados Unidos deixaram de ser obrigatórias, como a do sarampo, doença, aliás, que corre o risco de voltar no Brasil. O movimento antivacina ainda é muito forte.

Por que a vacinação deixou de ser vista como uma responsabilidade coletiva?
Na minha época, ninguém perguntava aos pais se poderia dar vacina ou não. Hoje, isso é um problema. Não é mais um ato obrigatório. As vacinas são instrumentos de proteção coletiva e não individual. E o Estado serve para isso. É uma batalha difícil. Vejo pessoas que não estão dando mais importância à vacinação dos filhos. Estão negando fatos científicos comprovados há mais de um século. A maior luta da humanidade é a ignorância contra a sabedoria.

No caso de uma nova pandemia, o que pode acontecer no Brasil?
O país está mais melhor preparado, mas seguramente enfrentará dificuldades. Melhoramos alguns setores, como a vigilância epidemiológica e a rede de distribuição, mas ainda não chegamos ao ponto de desenvolver vacinas rapidamente para enfrentar uma nova pandemia.



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