Bloomberg Línea — Em um momento em que tensões no Oriente Médio, escalada de guerras comerciais e disputas geopolíticas ameaçam algumas das rotas de comércio mais importantes do mundo, o enólogo argentino Alejandro Vigil enxerga na geografia o principal argumento de negócio para o vinho do seu país no Brasil.
“É o mercado mais importante para nós, pois mesmo em situações em que ninguém consegue transportar nada pelo mundo, nós estamos um ao lado do outro”, disse o enólogo-chefe da Catena Zapata e cofundador da vinícola El Enemigo em entrevista à Bloomberg Línea durante visita a São Paulo.
Para Vigil, entretanto, a relação entre os dois países vai além da conveniência logística. “O negócio é totalmente necessário e sustentável, do ponto de vista energético ao ponto de vista cultural”, afirmou.
O enoturismo reforçou esse vínculo, segundo ele, ao aproximar o consumidor brasileiro das vinícolas de Mendoza. “O que o enoturismo fez foi afiançar essa relação espiritual, mas sobretudo comercial”, disse. “Um avião a três horas e meia mudou totalmente a nossa visão.”
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O peso do público brasileiro na economia da região vitivinícola argentina ficou evidente nos anos de câmbio mais favorável, no início da década. Na época, “Mendoza viveu do Brasil”, contou.
Para ele, o principal obstáculo da relação comercial entre os dois países ainda está nos tributos. Um dos problemas mais graves hoje, disse, são os impostos cobrados no Brasil, que alimentam distorções na fronteira. A mudança cambial, porém, reduziu o mercado informal. “Há dois anos era muito mais barato comprar assim. Hoje não”, explicou. “O mercado regulou essa situação.”
Mais preocupante, para ele, é o contrabando e o descaminho de vinhos sem origem comprovada. “A falsificação é um problema maior porque você não sabe o que puseram dentro”, afirmou, ponderando que a prática é reduzida e rastreável. As bodegas argentinas, contou, atuam em conjunto por meio de associações do setor. “Estamos pressionando e aportando informação ao governo”, disse.
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Segundo Vigil, o avanço das vinícolas brasileiras, especialmente na região Sudeste, na última década deve ser visto como positivo, pois beneficia todo o setor, inclusive os argentinos. “Vai arraigar ainda mais o conceito e vai fazer crescer todo o segmento, não só o vinho brasileiro”, disse.
O desafio central, concluiu, não é local. “A luta no Brasil é que as pessoas se animem a tomar uma taça de vinho. Eu diria que no mundo é a mesma.”
Consumidor no comando
A leitura de mercado de Vigil parte de uma premissa pouco comum entre enólogos de prestígio. “O mercado está nos dizendo para onde vamos. Eu não posso dizer ao mercado para onde ele vai”, explicou. “Faço mais pensando no que o consumidor quer do que aquilo em que só eu acredito.”
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O exemplo mais concreto dessa filosofia é a transformação do Angélica Zapata, um dos vinhos mais conhecidos da bodega. O rótulo saiu de uma bebida envelhecida em barris novos de carvalho, que passam muito sabor para o vinho, para um perfil sem tanto apelo de madeira hoje, segundo ele, em cortes graduais de 5% a cada safra. “Fui aos poucos ajustando a bebida e o gosto do consumidor”, contou.
Essa deferência se estende à comparação com a crítica especializada. “Acho que é preciso ir aos números reais. Quanto se vende este vinho? O consumidor escolhe”, disse. “Especialistas têm muita tendência a menosprezar o gosto do público. Acho que é preciso ser um pouco mais cuidadoso quando falamos do consumidor.”
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