O Brasil precisa superar uma falsa escolha que há anos aprisiona o debate político nacional: a ideia de que o futuro do país passa necessariamente por Lula ou por Bolsonaro.
Não passa.
São projetos diferentes em muitos aspectos, mas semelhantes em um ponto essencial: nenhum dos dois conseguiu oferecer ao Brasil um projeto de país à altura de seus problemas.
O lulismo esteve no poder durante grande parte deste século. Bolsonaro governou por quatro anos e continua sendo o principal polo da direita brasileira. Tempo não faltou para mostrarem o que representam, principalmente ao PT.
O lulismo e o sequestro do Estado
O problema do lulismo começa em sua concepção de Estado. Lula acredita em um governo grande, arrecadador, distribuidor e protagonista da economia. Existe mérito na preocupação social. Um país desigual como o Brasil precisa proteger quem está na base da pirâmide.
O erro é transformar isso em uma máquina que precisa permanentemente gastar mais, arrecadar mais e encontrar novas formas de financiar despesas crescentes.
O Estado brasileiro arrecada muito, gasta muito, entrega pouco e continua caro para quem produz. Empresas enfrentam burocracia, insegurança jurídica e uma carga tributária sufocante. O empresário não aguenta mais contribuir e não ter nada em troca. O trabalhador paga impostos praticamente em tudo.
Enquanto isso, serviços públicos fundamentais continuam aquém do necessário.
O modelo petista tem enorme dificuldade em enfrentar essa contradição. Reformar privilégios, controlar despesas e melhorar a produtividade do Estado parece sempre mais difícil do que aumentar receitas.
O Brasil precisa de proteção social. Mas proteção social sem responsabilidade fiscal acaba sendo paga justamente pelos mais pobres, por meio de juros altos, perda do poder de compra, baixo investimento e crescimento medíocre.
O fracasso do bolsonarismo
Bolsonaro representa outro fracasso.
Seu discurso econômico prometia um Estado menor, mais liberal e menos intervencionista. Na prática, mostrou enorme dificuldade em transformar discurso em projeto.
O lema bolsonarista inclui a palavra “família”, mas muitas vezes parece que se refere apenas à própria família Bolsonaro. O projeto se tornou excessivamente pessoal, quase hereditário, como se o futuro da direita dependesse obrigatoriamente do sobrenome de seu líder.
Quando pressionado, o liberalismo cedeu frequentemente ao pragmatismo eleitoral. A prometida transformação estrutural do Estado nunca aconteceu na dimensão esperada.
E existe um problema ainda mais grave: a relação do bolsonarismo com as instituições.
A direita deveria valorizar ordem, estabilidade jurídica, respeito às regras e responsabilidade individual. O bolsonarismo caminhou muitas vezes na direção oposta.
Transformou conflito institucional em método e personalizou seu movimento a ponto de, para parte de seus seguidores, defender Bolsonaro passar a significar defender o próprio Brasil.
Isso é perigoso.
Também seria simplista apresentar o Supremo Tribunal Federal como contraponto moral incontestável. O STF, imundo em sua atual formação, acumulou decisões controversas, excessos e protagonismo político que merecem crítica própria — e que este jornal ainda pretende discutir em outro editorial.
Nenhum projeto político saudável pode depender da ideia de que seu líder está acima das regras.
E isso vale para Bolsonaro, Lula, STF ou qualquer outro centro de poder.
Integridade na vida pública e polarização
Há ainda um ponto especialmente incômodo para os dois lados: a integridade na vida pública.
O PT esteve no centro de alguns dos maiores escândalos políticos da história recente brasileira. Mensalão, Petrobras e tantos outros episódios não podem simplesmente desaparecer da memória coletiva.
O bolsonarismo surgiu prometendo romper com essa velha política.
Não conseguiu.
A retórica moralizadora conviveu com aproximação com o Centrão, práticas políticas tradicionais e sucessivos episódios envolvendo pessoas próximas ao ex-presidente.
As histórias são diferentes e não é correto fabricar equivalências jurídicas artificiais. Mas existe uma equivalência política evidente: os dois campos são extremamente eficientes em relativizar problemas éticos quando eles aparecem dentro da própria trincheira.
Para parte dos lulistas, corrupção é imperdoável até atingir o PT.
Para parte dos bolsonaristas, corrupção também é imperdoável até atingir Bolsonaro ou seus aliados.
Muda a justificativa. Muda o inimigo.
A tolerância permanece.
É uma moralidade seletiva em que o erro do adversário é crime e o erro do aliado sempre encontra alguma explicação conveniente.
O Brasil não precisa escolher qual populismo prefere.
Também não precisa decidir eternamente entre um Estado inchado vendido como justiça social e uma política de confronto permanente vendida como conservadorismo.
Essa polarização é conveniente para os dois.
Lula precisa de Bolsonaro para se apresentar como barreira contra a ‘extrema direita’. Bolsonaro precisa de Lula porque o antipetismo continua sendo o combustível capaz de manter seu campo político unido.
Um alimenta o outro.
Problemas reais e o futuro do Brasil
Enquanto isso, os problemas reais permanecem.
A produtividade continua baixa. O Estado continua caro. A educação básica é insuficiente. A infraestrutura precisa avançar. A dívida pública preocupa. A máquina pública preserva privilégios. A segurança pública enfrenta organizações criminosas cada vez mais poderosas.
O Brasil discute personagens quando deveria discutir reformas.
Discute salvadores quando deveria discutir instituições e políticas públicas.
Discute Lula e Bolsonaro quando deveria discutir o que pretende ser daqui a 20 ou 30 anos.
Insistir que nossas únicas opções são esses dois polos demonstra uma enorme falta de ambição nacional. Demonstra pura e simplesmente falta de inteligência.
O Brasil precisa de responsabilidade fiscal sem abandonar responsabilidade social. Precisa de uma economia competitiva, segurança pública sem autoritarismo, preservação ambiental sem hostilidade ao desenvolvimento e um Estado forte o bastante para cumprir suas funções, mas limitado o bastante para não sufocar quem trabalha e produz.
Sobretudo, precisa recuperar uma ideia elementar: governantes são funcionários temporários da República, não donos dela.
Nem Lula. Nem Bolsonaro. O Brasil é muito maior do que ambos.




