Recentemente, o X tomou uma iniciativa que merece ser destacada: tornou público o código-fonte do algoritmo que define boa parte do conteúdo apresentado aos seus usuários. Mais do que uma decisão tecnológica, considero essa atitude um importante passo em direção à transparência e à ética.
O algoritmo passou a poder ser analisado. É possível conhecer os critérios que influenciam a classificação das publicações, entender quais sinais recebem maior peso e, principalmente, verificar de que maneira determinadas informações podem ser amplificadas, reduzidas ou até mesmo deixar de aparecer. O usuário também passou a contar com mecanismos para verificar se sua conta ou suas publicações foram afetadas pelos sistemas de classificação.
Por que esta medida do X é tão significativa e merece ser copiada?
Porque transparência é uma das bases da ética. Quando não sabemos como uma decisão é tomada, ficamos sujeitos a acreditar simplesmente naquilo que nos é informado. Quando os critérios são conhecidos e podem ser examinados por terceiros, a sociedade passa a ter condições de questionar, verificar e, se necessário, contestar.
A abertura do código muda justamente essa lógica. As discussões sobre possíveis vieses deixam de depender apenas de acusações ou opiniões e passam a poder ser confrontadas com evidências. Pesquisadores externos, inclusive, já conseguiram reproduzir as pontuações de classificação, demonstrando que a verificação independente é possível.
É esse princípio que considero extremamente positivo. E gostaria de ver adotado por muitas outras empresas deste mundo tão digitalizado.
Vivemos em um mundo em que algoritmos estão cada vez mais presentes em nossas vidas. Eles ajudam a decidir o que vemos nas redes sociais, quais produtos nos são apresentados, quais informações chegam até nós e, em muitos casos, influenciam nossas escolhas sem que sequer percebamos.
Quanto maior o poder de uma tecnologia sobre a sociedade, maior deve ser também a responsabilidade de seus criadores.
Não significa que todas as empresas devam necessariamente abrir integralmente seus sistemas ou revelar informações que comprometam sua segurança, sua propriedade intelectual ou seus negócios. Mas significa que devemos caminhar para um ambiente no qual os critérios fundamentais das decisões automatizadas sejam cada vez mais compreensíveis, auditáveis e sujeitos à fiscalização independente.
O exemplo do X vai além da simples divulgação do código. A plataforma também anunciou a possibilidade de desenvolvedores externos apresentarem propostas de melhoria por meio do GitHub. Trata-se de uma experiência interessante de participação da sociedade na construção de um sistema que afeta milhões de pessoas.
É uma experiência que considero transparente e ética. Sabemos que toda inovação envolve riscos. Mas considero muito melhor experimentar modelos de transparência do que aceitar passivamente sistemas que influenciam nossas vidas sem que saibamos como funcionam.
A transparência, entretanto, não deveria ser apenas uma característica das redes sociais. Deveria ser um princípio dos governos, das empresas, das instituições em geral e de todos aqueles que exercem algum tipo de poder sobre a sociedade.
Quanto mais transparente for uma organização, maior será a possibilidade de ser fiscalizada. Quanto maior a fiscalização, menor o espaço para abusos. E quanto menor o espaço para abusos, maiores as possibilidades de construirmos relações baseadas na confiança.
É evidente que transparência, sozinha, não resolve todos os problemas. Ela precisa vir acompanhada de ética, responsabilidade, governança e respeito às pessoas. Mas é um excelente começo.
Por isso, considero positiva a iniciativa do X e gostaria de ver outras plataformas, empresas e instituições seguindo o mesmo caminho, dentro dos limites de sua atividade e de sua segurança.
Imagine um mundo em que os principais sistemas que influenciam nossas decisões fossem mais transparentes, auditáveis e compreensíveis. Certamente teríamos mais condições de identificar erros, combater abusos e responsabilizar aqueles que eventualmente ultrapassassem os limites da ética.
Talvez não consigamos construir um mundo absolutamente transparente. Mas podemos, certamente, construir um mundo muito mais transparente do que o atual.
E, quanto mais transparência tivermos, mais ética, mais responsabilidade e mais confiança teremos em nossa sociedade.
Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University
Fonte: Junior Borneli. O X Abre o Código do Seu Algoritmo. 14.08.2026.
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