A Aliança Agrícola continua dando o que falar — agora no processo de recuperação judicial que corre em Minas Gerais.
Depois de protagonizar um misterioso sumiço no início do ano, a trading que pertence ao grupo russo Sodrugestvo entrou na mira de credores por listar uma firma ligada aos próprios controladores como a maior credora.
Os credores receiam que, se nada for feito, a Sodrugestvo dite os rumos da recuperação judicial por meio de uma parte relacionada que, inicialmente, não constava na lista de credores da Aliança Agrícola.
Em janeiro, quando a empresa entrou com uma medida cautelar na Justiça para tentar uma mediação, a dívida listada no processo, de R$ 1,1 bilhão, tinha como maior credor individual o Banco do Brasil, com débitos de R$ 134 milhões.
Além do banco público, a maior parte do passivo da Aliança Agrícola estava concentrada em credores do setor financeiro, como Macquarie Bank, Santander e securitizadoras.
Os contornos começaram a mudar em março, quando a Aliança Agrícola pediu recuperação judicial. Foi nesse momento que a Intergrain, ligada ao grupo Sodrugestvo, apareceu como o maior credor, com uma dívida de R$ 156 milhões.
O movimento gerou críticas de outros credores. O Banco Inter chegou a apontar a estranheza desse crédito, assim como a Yukaer Armazéns — grupo com mais de 25 anos no setor agropecuário.
Tecnicamente, o crédito da Intergrain aparece como um adiantamento de clientes, o que intrigou os credores. Nas demonstrações financeiras de 2025, que foram auditadas pela KPMG, a Aliança Agrícola não havia reportado qualquer adiantamento de clientes, segundo uma petição da Yukaer.
Até agora, as reclamações sobre o papel da Intergrain não tiveram êxito. Na segunda instância, a desembargadora Juliana Campos Horta de Andrade, do TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), até reconheceu a relevância da questão, mas evitou uma decisão.
“As graves alegações de inconsistências contábeis e fraude, como a reclassificação de despesas e a súbita aparição de um credor de R$ 156 milhões, embora extremamente pertinentes e preocupantes, demandam uma análise técnica aprofundada que transcende os limites da cognição sumária”, escreveu a desembargadora, negando um recurso da Yukaer.
Procurada por The AgriBiz, a Aliança Agrícola respondeu que os questionamentos partem de um único credor, em um universo de mais de 1,6 mil.
“A relação de credores da recuperação judicial reflete fielmente a realidade da companhia, está sob fiscalização permanente do Juízo e do Administrador Judicial e não há, em nenhuma instância, reconhecimento de qualquer irregularidade”, disse a companhia, em nota.
Interlocutores próximos à Aliança Agrícola também questionam a associação que os credores fizeram entre a companhia, a Intergrain e o grupo Sodrugestvo, que seriam partes relacionadas entre si.
A tese é que o grupo russo não seria mais o controlador. A Lindeza Foundation, sediada no principado de Liechtenstein, detém a maior parte das ações da Aliança Agrícola desde 2021, quando recebeu as ações então detidas pela Sodrugestvo.
Credores envolvidos no processo questionam esse argumento. Segundo eles, a Lindeza seria ligada aos russos, o que a companhia contesta. Além disso, os credores argumentam que executivos da Sodrugestvo, incluindo Regis Lemes (CEO do grupo russo na América Latina), continuariam à frente da Aliança Agrícola.
Enquanto essa disputa ocorre, a Aliança Agrícola tenta avançar com o plano de recuperação judicial.
No início de junho, a companhia fez uma proposta para renegociar mais de R$ 900 milhões em dívidas. Nessa proposta, os credores quirografários sofreriam um deságio de 85% e as dívidas só seriam quitadas em 2041.
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Abaixo, confira a nota da Aliança Agrícola na íntegra:
“A relação de credores da recuperação judicial reflete fielmente a realidade da companhia, está sob fiscalização permanente do Juízo e do Administrador Judicial e não há, em nenhuma instância, reconhecimento de qualquer irregularidade.
Os questionamentos em circulação partem de um único credor — entre mais de 1.600 — que persegue seu interesse individual e cujas alegações já foram levadas ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que as rejeitou e manteve o regular processamento da recuperação. Qualquer crédito pode e deve ser examinado no procedimento próprio de verificação de crédito, com total transparência e contraditório. A companhia confia plenamente nesse processo”.
A Aliança Agrícola é representada pelo escritório Atie, Brito e Bastos.




