Existe uma classe de ativos que o mercado brasileiro ainda não aprendeu a precificar corretamente, que não é uma nova tecnologia , mineral crítico, não depende de uma descoberta científica nem de uma regulação futura para existir. Esse ativo é produzido todos os dias, em volume crescente, por cada cidade, cada indústria e cada consumidor do país. Estamos falando dos resíduos.
O Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Historicamente, tratamos esse volume como um problema sanitário, ambiental e financeiro. Algo que precisava ser removido das cidades de forma eficiente e segura. Mas essa visão está rapidamente ficando obsoleta.
Porque o que chamamos de lixo contém energia, carbono capturável, materiais recicláveis, moléculas renováveis e atributos ambientais cada vez mais valiosos em uma economia orientada pela descarbonização.
A pergunta que investidores, reguladores e formuladores de políticas públicas deveriam estar fazendo não é quanto lixo o Brasil produz. É quanto valor o Brasil ainda está deixando de capturar por meio de uma gestão adequada e de infraestrutura moderna para tratamento de resíduos.
Durante o século XX, riqueza foi associada à capacidade de extrair recursos da natureza. Petróleo, minério e combustíveis fósseis moldaram economias, definiram geopolíticas e determinaram a competitividade de países inteiros. O século XXI começa a operar sob uma lógica diferente.
À medida que o mundo busca reduzir emissões, fortalecer a segurança energética e diminuir a pressão sobre recursos naturais, uma nova capacidade passa a ganhar relevância econômica: recuperar aquilo que já foi extraído.
O século XX foi construído sobre a capacidade de extrair recursos da natureza. O século XXI será construído sobre a capacidade de recuperá-los. E essa mudança está acontecendo diante dos nossos olhos.
A União Europeia avança com a implementação do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que incorpora emissões à lógica da competitividade internacional ao exigir que exportadores reportem e, progressivamente, internalizem o custo do carbono embutido em produtos como aço, alumínio, cimento e fertilizantes. Mercados regulados de carbono ganham escala.
Combustíveis renováveis ocupam espaço crescente nas matrizes energéticas. Grandes empresas assumem compromissos de descarbonização que exigem rastreabilidade, circularidade e redução efetiva de emissões.
Todos esses movimentos aumentam a demanda por uma mesma coisa: matéria-prima secundária. Ou, em outras palavras, resíduos transformados em valor.
O fenômeno já pode ser observado em decisões regulatórias concretas. Na Europa, o CBAM transforma atributos ambientais em fatores de competitividade industrial e comercial – com obrigações financeiras reais para quem não conseguir comprovar a pegada de carbono de seus produtos.
Origem renovável
No Brasil, a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro de 2024 e regulamentada pela ANP em fevereiro de 2026, instituiu o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) — um instrumento que atesta a origem renovável do biometano com rastreabilidade verificada e registrada.
Com ele, a captura de biogás e a produção de biometano deixam de ser apenas atributos ambientais e passam a gerar um ativo econômico rastreável, negociável e regulado. Pela primeira vez, uma molécula renovável originada de resíduos passa a carregar não apenas valor energético, mas também valor regulatório.
A captura de metano, a recuperação de materiais e a rastreabilidade ambiental deixam de ser apenas externalidades. Passam a gerar receitas, reduzir custos regulatórios e criar vantagens competitivas para empresas e setores inteiros. É nesse ponto que o debate deixa de ser ambiental e passa a ser econômico.
O erro mais comum é imaginar que o setor de resíduos pertence à mesma categoria de vinte anos atrás. Talvez o principal equívoco não esteja na precificação, mas na classificação.
O mercado continua tratando empresas de resíduos como empresas de resíduos. Mas essa definição está ficando rapidamente ultrapassada. Uma organização capaz de capturar metano, produzir biometano, gerar energia renovável, recuperar materiais para a indústria, comercializar atributos ambientais e evitar emissões de carbono não opera apenas na gestão de resíduos. Ela opera infraestrutura energética, climática e para a economia circular.
A diferença parece semântica. Não é. Mercados não atribuem valor apenas ao que uma empresa faz hoje. Eles precificam aquilo que acreditam que ela será capaz de gerar amanhã. E existe outro aspecto frequentemente ignorado. Essa infraestrutura possui barreiras de entrada extraordinárias — e elas começam antes mesmo da primeira tonelada processada. Uma usina solar pode ser financiada e construída em poucos anos; uma fábrica pode ser replicada com relativa velocidade; mas uma rede de ecoparques não.
Ela exige décadas de desenvolvimento, licenciamento ambiental, engenharia especializada, logística complexa, escala operacional e relacionamento institucional. São ativos construídos ao longo do tempo e que não surgem apenas porque existe capital disponível. Aqui é onde a narrativa precisa ser lida com precisão: o valor não está no resíduo bruto. Está no sistema de transformação.
Petróleo no subsolo também possui valor potencial, mas não gera riqueza sem refinarias, dutos, terminais e capital intensivo. Da mesma forma, resíduos não se transformam espontaneamente em energia, combustível renovável, créditos ambientais ou matérias-primas industriais.
Garantia de gestão
O valor econômico está na capacidade de conversão. O gate fee não remunera o resíduo em si. Remunera a capacidade de garantir sua gestão e destinação ambientalmente adequada por meio de uma infraestrutura complexa, construída ao longo de décadas.
O diferencial econômico surge de outra decisão: a capacidade empresarial de transformar esse fluxo inevitável em energia, combustível renovável e atributos ambientais. Isso exige visão de longo prazo, gestão de riscos e capacidade de estruturar projetos robustos e financiáveis. É isso que torna essa infraestrutura tão difícil de replicar — e tão estratégica.
A lógica é semelhante à das energias renováveis. Vento e sol são abundantes e gratuitos. O que possui valor econômico é a infraestrutura capaz de convertê-los em energia confiável e disponível para o mercado.
Com resíduos, acontece o mesmo. O recurso é abundante. A transformação é complexa. E é exatamente por isso que ela vale. Por isso, a infraestrutura da economia circular talvez seja uma das mais escassas — e menos compreendidas — da nova economia verde.
Os números ajudam a ilustrar essa transformação. Em 2025, apenas uma das maiores plataformas brasileiras do setor processou quase 9 milhões de toneladas de resíduos, produziu cerca de 500 mil MWh de energia renovável, capturou mais de 59 mil Nm³ por hora de biogás e evitou mais de 3 milhões de toneladas de CO2 equivalentes.
Esses indicadores não descrevem um passivo ambiental, mas uma plataforma produtiva. Descrevem ativos capazes de gerar energia, combustível renovável, créditos ambientais e matérias-primas para novas cadeias industriais.
A transformação do século XXI
O petróleo transformou o século XX porque permitiu converter geologia em energia. Os resíduos podem ajudar a transformar o século XXI porque permitem converter um desafio urbano e ambiental em novas fontes de produtividade, eficiência e segurança energética.
A diferença é que não estamos falando de uma reserva finita. Estamos falando de um fluxo permanente, renovado diariamente por cidades, indústrias e consumidores.
Diferentemente de muitos recursos naturais, trata-se de um fluxo altamente previsível, pouco sujeito a ciclos de escassez e diretamente associado ao crescimento urbano e econômico.
O Brasil reúne condições raras para liderar esse movimento. Possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, enorme potencial para produção de biogás e biometano, ampla disponibilidade de resíduos orgânicos e uma necessidade crescente de modernização da gestão ambiental urbana. Isso não é apenas uma agenda ambiental.
É política industrial, competitividade, segurança energética. E talvez seja uma das maiores oportunidades econômicas ainda subprecificadas do país.
O Brasil discute hidrogênio verde, combustível sustentável de aviação e a nova economia de baixo carbono. Todos são temas relevantes. Mas talvez uma das infraestruturas mais estratégicas dessa transformação esteja escondida em plena vista.
Durante séculos, civilizações enriqueceram extraindo recursos da natureza. A próxima enriquecerá recuperando recursos que já foram extraídos.
O Brasil já possui essa matéria-prima. Produzimos milhões de toneladas dela todos os dias. O lixo foi tratado durante décadas como um passivo. O século XXI começa a revelar que ele pode ser um dos ativos estratégicos da transição energética, da segurança climática e da competitividade industrial.
*Marília Garcez, diretora de economia circular, comunicação e sustentabilidade da Orizon




