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O retorno (e o custo) da aposta da MBRF no Oriente Médio

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Quando a guerra do Irã começou, os conflitos foram vistos com preocupação pelos investidores da MBRF, uma companhia que vem se expondo cada vez ao mercado do Oriente Médio. Mas o risco foi encarado pela maior exportadora brasileira de carne de frango. Ela dobrou a aposta, aumentando os estoques em mar para conseguir atender aos clientes da região.

Apesar dos custos logísticos e da maior necessidade de capital de giro, a estratégia deu certo. A Sadia Halal alcançou uma rentabilidade recorde no segundo trimestre, mostrou o balanço divulgado na quinta-feira à noite.

O aumento de preços superou os custos adicionais causados pelas dificuldades logísticas, contribuindo para que a operação no Oriente Médio fosse o destaque do bom desempenho operacional da MBRF no período.

“Quando tivemos o advento do conflito no Oriente Médio, nós mantivemos os nossos embarques e continuamos atendendo os nossos clientes. Isso se mostrou uma decisão extremamente acertada. Se naquela região o conceito de segurança alimentar já era muito valioso, com o conflito ele se potencializou”, disse Miguel Gularte, CEO da MBRF, em call com analistas nesta sexta-feira.

Com tradição no mercado halal e um direcionamento reforçado para o Oriente Médio desde a chegada de Marcos Molina ao comando da companhia, a MBRF se aproveitou da capilaridade, da experiência e de suas marcas para se fortalecer em uma das regiões mais promissoras do mundo no consumo de proteínas.

No segundo trimestre, o Ebitda da Sadia Halal, unidade que reúne todos os ativos no Oriente Médio, mais que dobrou em relação ao mesmo período do ano passado, para US$ 95 milhões. A margem subiu de 9% para 16%. “Isso nos deixa muito bem-posicionados para o futuro IPO” da Sadia Halal, disse Gularte.

Queima de caixa

A estratégia bem-sucedida teve um custo: um aumento relevante no consumo de capital de giro, o que drenou caixa da MBRF.

Para atender os clientes no Oriente Médio, a empresa alocou mais de 50 mil toneladas extras de estoque entre o Brasil e a região. Parte já resultou em maior rentabilidade no segundo trimestre e uma outra parte ainda vai retornar para o negócio no segundo semestre, segundo o CFO da MBRF, José Ignacio Scoseria.

Outros fatores com impacto no consumo de caixa no trimestre — que somou de R$ 864 milhões — são o aumento na quantidade de gado confinado, que teve um primeiro semestre favorável para os confinadores, e o início da formação de estoques de produtos comemorativos, que se transformarão em receita no quarto trimestre.

“A nossa expectativa e o nosso comprometimento é devolver esse consumo excepcional que tivemos no primeiro semestre para o fluxo de caixa da companhia no segundo semestre”, disse o CFO.

A melhora no fluxo de caixa deve ajudar a companhia a reduzir a alavancagem, que chegou a 3,41 vezes no segundo trimestre. Há um ano, a relação entre dívida líquida e Ebitda era de 2,74 vezes.

Ao mesmo tempo, a companhia trabalha para reduzir o capex — a meta é ficar em R$ 5 bilhões neste ano e em R$ 4 bilhões em 2027 —, cumprir o objetivo de capturar R$ 1 bilhão em sinergias advindas da fusão este ano, e espera receber US$ 75 milhões do fundo soberano da Arábia Saudita até o final de 2026, referente ao pagamento de parte da venda de participação na Sadia Halal.

Outra contribuição para a redução da alavancagem nos próximos meses pode vir de uma melhora gradual no negócio de carne bovina nos EUA, que responde por quase metade da receita da MBRF.

Durante a teleconferência desta sexta-feira, Tim Klein, CEO da National Beef (controlada pela MBRF), disse que a reestruturação da Tyson em bovinos, anunciada ontem, vai reduzir a capacidade de abate nos EUA em 3 mil cabeças de gado por dia imediatamente. Atualmente, segundo ele, a indústria norte-americana está abatendo cerca de 80 mil cabeças diariamente. Em outras palavras, a capacidade de abate nos EUA cairá quase 4% de um dia para outro.

A autorização para as importações de gado do México pelos EUA também deve trazer alívio ao setor ao aumentar a oferta de animais para o abate, embora os efeitos devam ser mais relevantes a partir da segunda metade de 2027, na visão dele. “O pior do ciclo já passou e as coisas vão melhorar daqui para frente”, disse Klein.

Os números

A MBRF reportou uma receita líquida de R$ 40,7 bilhões no segundo trimestre, um crescimento de 5% em relação ao mesmo período do ano passado. O Ebitda ajustado também avançou 5% na mesma comparação, para R$ 3,2 bilhões, com margem de 7,9%. O lucro líquido caiu 19,5%, atingindo R$ 69 milhões. A dívida líquida aumentou 19,7%, para R$ 45 bilhões.

As ações da MBRF operam perto da estabilidade nesta sexta-feira na B3. A empresa está avaliada em R$ 22,6 bilhões na Bolsa.



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