16.5 C
Marília
HomeCiência & TecnologiaLula avalia ação contra as bets após ouvir sociedade civil

Lula avalia ação contra as bets após ouvir sociedade civil

spot_img


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que está com uma decisão praticamente formada sobre a ação que o governo federal pretende tomar contra as plataformas de apostas eletrônicas, as bets. Em reunião no Palácio do Planalto nesta terça-feira, 1, Lula disse que está com “dois terços” de sua decisão tomada.

O encontro com ministros e com representantes da sociedade civil avaliou os impactos das bets na sociedade brasileira, em especial na saúde, nas famílias e na economia.

Após ouvir os posicionamentos, Lula afirmou que, se dependesse de sua visão pessoal, as bets seriam proibidas, em especial por ser uma dívida invisível que assola a sociedade

“Na campanha de 2022, 78% das pessoas estavam endividadas. Criamos o Desenrola, que foi um programa excepcional. Apareceram 11 milhões de pessoas, das quais, 10 milhões deviam no máximo R$ 100. Mas isso não acabou com a dívida porque ela não era visível. Era uma dívida invisível e quem deve por conta do jogo não tem coragem de dizer que deve por conta do jogo. Ele sabe que cometeu um ilícito contra ele próprio, contra a mulher, a família e ele não tem coragem de dizer que faltou leite para o filho por causa do jogo”, disse Lula depois de ouvir os convidados da reunião.

O presidente reforçou que proibir cerca de 60 mil bets clandestinas é praticamente impossível, pois os órgãos públicos não têm capacidade para fiscalizar. O mandatário também criticou ações de jogadores, clubes de futebol, influenciadores e canais de TVs que fazem campanhas para atrair consumidores às apostas.

Sociedade civil x bets

O presidente da CNBB, cardeal dom Jaime Spengler, afirmou que a “sociedade está doente” devido à disseminação dos jogos de azar. Spengler pediu que o governo intensifique o trabalho, com o fortalecimento das restrições ou proibição de publicidade, proteção às pessoas vulneráveis e crianças, fortalecimento das políticas públicas, publicação de dados regulares sobre o setor, além do acirramento das medidas de proteção e regulação. Por sua vez, a vice-presidente da CONIC, pastora sinodal Patrícia Bauer, pediu a proteção de renda e benefícios das pessoas, verificação de identidade, alertas e ações efetivas contra o uso indiscriminado das apostas.

Maria Mello, coordenadora de programas do Instituto Alana, lembra que 10,5% das crianças brasileiras já apostaram. Mello afirmou que se trata de uma epidemia em curso, e que Instagram e Kwai foram coniventes, uma vez que crianças de 6 anos fizeram campanhas de Tigrinho em suas redes. A especialista também recorda que R$ 62 bilhões foram retirados do orçamento das famílias brasileiras por conta das apostas em 2025, segundo dados da Fazenda Nacional.

Pelo setor cultural, o cantor Emicida afirmou que as bets são “um dreno de dinheiro” e pediu que o governo caminhe para uma direção proibitiva, em uma estratégia de mitigação voltada à regulação econômica, de publicidade, de design e de comportamento, atuando diretamente para combater ferramentas que estimulam o vício, como o autoplay e o modo turbo.

Isaac Sidney, presidente da Febraban, alertou que R$ 21 bilhões são ofertados em crédito aos usuários por mês. Na visão de Sidney, o acesso ao crédito abre a possibilidade de a pessoa se endividar mais em apostas. O executivo lembra que, apesar de o uso do cartão de crédito ser proibido nesta modalidade de jogos de azar, o usuário pode transferir o saldo do cartão para uma carteira de uma das 60 mil bets clandestinas no país.

Ao todo, 15 representantes da sociedade civil participaram da reunião com o presidente no Palácio do Planalto. Entre outros dados apresentados estão:

  • 11 milhões de pessoas estão em situação crítica decorrente de apostas virtuais, segundo dados do IEPS de 2023, mas o número atual pode ser maior;
  • 1 em cada 25 brasileiros joga de maneira problemática e compulsiva, segundo o Observatório de Saúde Brasil da USP;
  • 6 em cada 10 mulheres brasileiras já jogaram em bets, 68% fazem isso para tentar aumentar a renda e 67% afirmam que as apostas estão acabando com suas famílias, informa o Instituto Clarisse;
  • R$ 143 bilhões deixaram de circular na economia brasileira pelas bets entre 2023 e 2025, segundo a CNC;
  • As pessoas entre 20 e 30 anos são as mais afetadas, mas os idosos (acima de 60 anos) chegam a gastar R$ 3 mil por mês, segundo o Dieese.

Executivo contra as bets

Lula, bets, governo, proibição, regulação, sociedade civil, apostas, executivo, legislativo

Lula, a primeira-dama Janja Lula da Silva, ministros e sociedade civil em reunião sobre o impacto das bets (reprodução: YouTube/Lula)

A ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, recorda que as apostas esportivas foram legalizadas em 2018, mas operaram por sete anos sem regulamentação ou responsabilidade social. A partir de 2023, o governo estabeleceu exigências rigorosas, como a autorização via Ministério da Fazenda. Atualmente, 194 marcas estão sob fiscalização.

A fiscalização também tem atuado com ênfase sobre 37 instituições financeiras ligadas às bets que receberam notificação de bloqueio, além de alertas emitidos para Apple e Google. Belchior lembra ainda da investigação aberta contra a Cazé TV no âmbito do Ministério da Justiça por publicidade abusiva, assim como averiguação em SBT e Globo sobre prática similar durante a Copa do Mundo que ocorreu neste ano.

A ministra reforça ainda que 1,2 milhão de pessoas já se inscreveram na plataforma de autoexclusão para se bloquearem dos jogos voluntariamente. Além disso, 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e BPC foram impedidos de usar seus recursos nessas plataformas, e 1 milhão de pessoas que aderiram ao Desenrola (plano de renegociação de dívidas) deixaram de apostar para entrar no programa. Ou seja, um total de 5 milhões de brasileiros adotaram medidas de autoexclusão.

Por sua vez, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, alertou para a explosão de casos de ludopatia (vício em jogos), algo que resultou em uma reorganização do SUS na área. Um projeto-piloto de teleatendimento para a condição, voltado a 600 atendimentos em parceria com o Sírio-Libanês, teve no primeiro mês dez vezes mais pedidos de apoio do que a capacidade criada.

Com isso, o SUS precisou contratar uma estrutura para 2 milhões de consultas psicológicas via celular, iniciando com 100 mil vagas mensais. Atualmente, as mulheres são as que mais buscam ajuda psicológica, representando 55% das consultas, mas Padilha lembra que, globalmente, os homens são os mais acometidos pelo vício em jogos. A maioria (26%) é de pessoas que se autoidentificaram de cor parda. No atendimento físico via CAPS, a busca por tratamento contra a ludopatia somou 5 mil atendimentos em 2025 e já está em 3,1 mil em 2026.

O ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, afirmou que o setor esportivo é o mais beneficiado pelas bets, com R$ 500 milhões de receita recebida apenas no primeiro semestre de 2026. Cordeiro disse ainda que, apesar deste montante, o setor não pode se beneficiar do segmento e se apresentar como promotor de vida, saúde, lazer e segurança pública, ao mesmo tempo em que as apostas afligem a população.

Legislativo contra as bets

Lula, bets, governo, proibição, regulação, sociedade civil, apostas, executivo, legislativo, Damares, Alessandro Vieira, SenadoLula, bets, governo, proibição, regulação, sociedade civil, apostas, executivo, legislativo, Damares, Alessandro Vieira, Senado

Debate sobre as bets na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado (crédito: Carolina Curi/Agência Senado)

Não foi apenas o Executivo que se reuniu para avaliar o impacto das bets. A Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado também se reuniu nesta terça-feira para debater as apostas eletrônicas no âmbito do Projeto de Lei nº 2.470/2026, de autoria da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e de relatoria do senado Alessandro Vieira (MDB-SE) que restringe a publicidade e o patrocínio de apostas online.

Carlos Eduardo Cabral Lima, presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), afirmou que o problema são as bets ilegais. Lima diz ainda que o setor colabora com R$ 9,6 bilhões por ano em contribuição ao Estado, gera R$ 35 bilhões de faturamento anual e emprega 15,5 mil pessoas direta ou indiretamente.

Francisco Cordeiro, consultor nacional da Opas, afirma que o Estado gasta pelo menos R$ 4 para lidar com o estrago de cada R$ 1 que ganha com as bets. Marcelo Kimati Dias, representante do Ministério da Saúde na audiência, ressalta que apenas 1% da arrecadação das bets é repassada à pasta, que registrou um aumento de 140% nos atendimentos de ludopatia entre 2018 e 2025. Dias reforça ainda que a dependência em apostas é um problema de saúde pública, com risco de suicídio 15 vezes maior entre as vítimas.

Importante lembrar que Mobile Time é um dos 60 signatários da campanha de veículos jornalísticos que não aceitam propagandas de bets. A ação foi lançada em julho deste ano.

Imagem principal: Presidente Lula durante audiência sobre as bets nesta terça-feira, 1 (reprodução: YouTube/Lula)

 

*********************************

Receba gratuitamente a newsletter do Mobile Time e fique bem informado sobre tecnologia móvel e negócios. Cadastre-se aqui!

Siga o canal do Mobile Time no WhatsApp!

As ilustrações das matérias são produzidas por Mobile Time com IA



Fonte Link

spot_img
spot_img
Fique conectado
16,985FansLike
2,458FollowersFollow
61,453SubscribersSubscribe
Deve ler
spot_img
Notícias Relacionadas
spot_img