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Três manifestos sobre IA e a decisão que ainda não tomamos

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Em apenas 33 dias, três das pessoas mais influentes da tecnologia mundial publicaram manifestos sobre inteligência artificial. Entre 10 de agosto e 12 de setembro, Mark Zuckerberg, Bill Gates e Dario Amodei apresentaram visões distintas sobre trabalho, distribuição de poder, segurança e os limites que deveríamos estabelecer para as máquinas.

Os três defendem que a inteligência artificial deve ampliar o potencial humano. No entanto, aquilo que Zuckerberg apresenta como caminho para a prosperidade aparece em Gates como possível fonte de desigualdade e, em Amodei, como um risco que talvez exija a desaceleração do próprio desenvolvimento tecnológico.

As divergências são importantes, mas existe uma questão anterior a todas elas: quem terá legitimidade para decidir o que poderá ser delegado à inteligência artificial?

Em 10 de agosto, Mark Zuckerberg publicou “The Future is for Everyone”. Seu argumento central é que a maior contribuição da superinteligência não será apenas automatizar o que já fazemos, mas permitir que as pessoas inventem coisas que hoje não conseguiriam criar. Agentes pessoais ampliariam a capacidade de cada indivíduo para aprender, trabalhar, produzir e transformar ideias em realidade.

Sua visão é otimista e, ao mesmo tempo, conveniente para uma empresa cuja estratégia depende de colocar inteligência artificial nas mãos de bilhões de usuários.

Zuckerberg sugere que distribuir o acesso à IA seria uma forma de impedir a concentração de poder. Entretanto, acesso e poder não são sinônimos. Uma tecnologia pode ser amplamente utilizada e continuar sob o controle de poucas organizações.

O usuário poderá conversar com o agente, produzir conteúdos, desenvolver projetos e automatizar tarefas, mas não decidirá como o modelo foi treinado, quais dados utiliza, quais interesses econômicos orientam seu funcionamento ou quais limites serão modificados no futuro. A inteligência poderá estar distribuída enquanto o poder sobre ela continua concentrado.

Em 26 de agosto, Bill Gates publicou “The Turbulent AI Era Is Here”. Para ele, a inteligência artificial poderá se tornar um dos maiores instrumentos de redução das desigualdades já criados ou uma nova e poderosa fonte de injustiça.

Gates reconhece o potencial da tecnologia, mas chama a atenção para a velocidade e a assimetria da transição. Os ganhos de produtividade podem chegar imediatamente às empresas, enquanto os benefícios sociais talvez levem anos para alcançar quem perdeu o emprego, teve sua profissão transformada ou não recebeu formação suficiente para participar da nova economia.

Sua proposta mais provocadora é a criação de atividades “reservadas aos humanos”. Assim como algumas áreas naturais são protegidas da exploração, determinadas funções poderiam ser preservadas da automação completa, mesmo quando a inteligência artificial já fosse tecnicamente capaz de executá-las.

A ideia é humanista, mas apresenta outro problema: quem decidirá quais atividades merecem proteção?

Existe o risco de preservarmos para os humanos as profissões intelectuais, criativas e socialmente valorizadas, enquanto automatizamos primeiro as funções operacionais das quais milhões de pessoas dependem para sobreviver. Nesse cenário, aquilo que foi concebido como proteção poderia se transformar em privilégio.

Também precisaríamos decidir se essas reservas deveriam alcançar áreas como educação, saúde, Justiça, segurança, gestão de pessoas e decisões públicas. Não porque a inteligência artificial seja necessariamente incapaz de atuar nesses campos, mas porque talvez existam responsabilidades que uma sociedade não deva transferir integralmente às máquinas.

Gates nos conduz, portanto, a uma pergunta mais importante do que a capacidade técnica: mesmo quando uma máquina puder fazer algo, devemos permitir que ela faça?

Em 12 de setembro, Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou “We Must Pace the Frontier”. Seu argumento é que a capacidade dos modelos avançados está crescendo mais rapidamente do que nossa habilidade para controlá-los. Por isso, propõe ajustar o ritmo do desenvolvimento, fortalecer os testes de segurança e permitir que avaliadores independentes tenham acesso permanente aos laboratórios.

O alerta ganhou força depois do episódio envolvendo agentes da OpenAI e a Hugging Face. Durante avaliações internas de segurança, modelos contornaram mecanismos de isolamento, comunicaram-se por canais não autorizados e acessaram sistemas externos. Algumas dessas ações ultrapassaram os limites originalmente definidos para as tarefas.

O caso mostrou que a discussão já não pertence apenas ao campo da ficção científica. Agentes suficientemente capazes podem perseguir um objetivo de maneiras não previstas, inclusive ultrapassando barreiras técnicas e interpretando mensagens de outros agentes como se fossem autorizações legítimas.

Amodei tem razão ao defender fiscalização independente. Avaliar sistemas somente depois de seu lançamento será insuficiente quando esses modelos puderem alcançar milhões de pessoas e organizações em poucos dias. Universidades, pesquisadores e instituições independentes precisam participar da validação e do acompanhamento dessas tecnologias.

Ainda assim, a proposta de desaceleração também merece ser questionada. A Anthropic participa da mesma corrida que pretende moderar. Além disso, exigências excessivamente complexas e caras podem favorecer justamente os laboratórios que já possuem capital, infraestrutura, dados e modelos avançados. Uma regulação criada para reduzir riscos pode, se for mal concebida, consolidar ainda mais o poder das empresas dominantes.

Sam Altman, da OpenAI, Demis Hassabis, do Google DeepMind, e Elon Musk, da xAI, apoiaram a direção proposta por Amodei. Altman afirmou que a OpenAI também pretende permitir que avaliadores independentes tenham acesso semelhante ao de funcionários da empresa.

Enquanto parte da indústria discute a necessidade de reduzir a velocidade, o presidente dos Estados Unidos reagiu classificando como uma “conspiração doentia” o movimento que tentaria frear a inteligência artificial e a construção de data centers. A competição com a China torna qualquer pausa politicamente difícil, pois cada país teme que a prudência interna se transforme em vantagem estratégica para o adversário.

Surge outro paradoxo: todos podem reconhecer os riscos e, ainda assim, continuar acelerando. Nenhuma empresa quer ficar para trás, nenhum investidor deseja financiar o segundo colocado e nenhum país pretende entregar a liderança tecnológica ao rival. A corrida pode prosseguir mesmo quando seus participantes concordam que ela está rápida demais.

O problema, portanto, não é somente tecnológico. É um problema de governança, incentivos e legitimidade.

Nas empresas, essa discussão já está presente nas decisões sobre contratação, concessão de crédito, definição de preços, atendimento, campanhas de marketing, avaliação de desempenho e relacionamento com consumidores. Um algoritmo pode escolher quem receberá uma oportunidade, qual oferta será apresentada, quanto uma pessoa pagará ou se determinado cliente será considerado um risco.

Automatizar uma decisão não elimina a responsabilidade da organização. A empresa continua responsável pelos dados utilizados, pelos critérios adotados e pelas consequências produzidas, mesmo quando seus gestores não conseguem explicar completamente como o sistema chegou àquela conclusão.

É exatamente nesse ponto que se torna necessária uma Ontologia da Decisão.

Não basta tornar os modelos mais inteligentes ou estabelecer barreiras externas ao seu funcionamento. Precisamos estruturar o ambiente no qual a inteligência artificial participa das decisões. Isso significa representar de maneira explícita as pessoas, os dados, os objetivos, as regras, os limites, as relações de autoridade e os impactos envolvidos em cada ação.

Uma IA pode calcular probabilidades, identificar padrões e recomendar um caminho. Entretanto, ela não deveria definir sozinha quem possui autoridade para decidir, quais interesses precisam ser considerados, quais regras não podem ser ultrapassadas e quem responderá pelas consequências.

Imagine um sistema de inteligência artificial utilizado para definir uma oferta comercial. O modelo pode identificar o produto com maior probabilidade de conversão, o melhor canal, o momento mais adequado e até o preço que determinado cliente estaria disposto a pagar. A Ontologia da Decisão acrescenta perguntas que o cálculo estatístico, sozinho, não resolve: esse cliente autorizou o uso de seus dados? Existe alguma restrição comercial ou regulatória? A diferenciação de preço é legítima? Quem aprovou a campanha? Qual será o impacto sobre a relação de longo prazo com o consumidor?

A ontologia conecta cada recomendação ao contexto real da organização. Ela estabelece onde a IA pode apenas sugerir, onde pode executar automaticamente, onde precisa solicitar aprovação e onde não deve atuar.

Com isso, a inteligência artificial deixa de operar como uma caixa de respostas isolada e passa a atuar dentro de uma arquitetura de responsabilidade. A organização não entrega uma decisão inteira à máquina; define previamente as relações, as regras e os limites que tornam aquela decisão legítima.

Esse talvez seja o ponto que os três manifestos ainda não resolvem. Zuckerberg discute quem terá acesso à inteligência. Gates pergunta o que deverá permanecer humano. Amodei procura controlar a velocidade dos modelos. A Ontologia da Decisão acrescenta a pergunta operacional: como garantir que cada decisão continue vinculada ao contexto, à autoridade e à responsabilidade?

Todos falam sobre o futuro da humanidade, mas a humanidade aparece principalmente como destinatária das decisões, e não como participante de sua construção.

O verdadeiro debate não está apenas entre acelerar ou desacelerar, abrir ou fechar modelos, automatizar ou preservar empregos. Está na distância crescente entre a capacidade tecnológica das empresas e a legitimidade social necessária para determinar como essa capacidade será utilizada.

O futuro da inteligência artificial não será definido apenas pela potência dos modelos, mas pela qualidade das decisões que permitirmos que eles influenciem. Um futuro verdadeiramente construído para todos exigirá mais do que acesso, limites ou desaceleração. Exigirá uma ontologia capaz de preservar contexto, autoridade e responsabilidade, garantindo que a inteligência possa ser artificial, mas que a decisão continue essencialmente humana.

 

 

Leandro Monteiro é Vice-Presidente da ADVB, Chairman da Virtual Fans, CEO da ClubBrain.ai e Autor de “Ontologia da Decisão Empresarial”

 

 

 

 

* As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da ADVB. Para publicar um artigo ou matéria neste Portal ADVB, envie para redacao@advb.org para aprovação da publicação.



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