Os fundos de pensão brasileiros chegaram a um nível recorde de concentração em renda fixa, mas ainda veem espaço para aumentar a exposição. É o que mostra a pesquisa Raio-X de Investimentos das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) 2026, elaborada pela Itajubá em parceria com a Abrapp.
O levantamento mostra que o percentual de concentração das carteiras dos fundos de pensão em renda fixa subiu de 79,4% para 86,2%, uma alta de 6,8 pontos percentuais (p.p.) nos últimos três anos.
Para os próximos anos o apetite se mantém. A expectativa é de que 31% das entidades pesquisadas elevem a exposição a títulos públicos e 5% a crédito privado em uma janela mais curta, de 12 meses. Em um horizonte de médio prazo, ao longo de 36 meses, 36% dos pesquisados pretende aumentar o percentual da carteira em títulos, e outros 15% em crédito privado.
“Estamos no máximo histórico [da alocação em renda fixa] e poucos estão pensando em reduzir”, afirma Carlos Garcia, sócio fundador da Itajubá Investimentos e coordenador da pesquisa, ao NeoFeed. O levantamento reuniu mais de 12 mil informações de entidades que somam R$ 461 bilhões em ativos, o equivalente a 34% do sistema de previdência complementar fechada.
A explicação para o movimento de concentração na renda fixa está, em grande parte, nas altas taxas de juros do mercado brasileiro, que estão há quatro anos acima do patamar de dois dígitos, e estimulam a concentração das carteiras no segmento.
“Com o patamar de juros que temos atualmente, as fundações conseguem [um retorno] em torno de 8% acima da inflação e elas têm meta, em média, de 4,5% a 5%. Isso deixa as entidades numa condição mais cômoda e os gestores, por dever fiduciário, têm que aproveitar esse momento para enriquecer os seus participantes”, diz João Carlos Ferreira, diretor de Investimentos da Abrapp.
O setor é tradicionalmente conservador, mas a composição mais buscada dentro da renda fixa mostra uma postura ainda mais cautelosa. Cerca de 90% dos recursos destinados à classe estão em títulos públicos, enquanto o crédito privado responde por 10%. Além disso, 29% dos planos não têm exposição a crédito privado. Entre os títulos públicos, as NTN-B, papéis do Tesouro Nacional indexados à inflação, são os predominantes nas carteiras.
Os gestores avaliam que uma eventual redução dos juros é condição básica para que alguma diversificação volte ao radar das fundações. “A partir do momento que esses juros estão caindo, os gestores precisam trabalhar mais para obter retornos mais significativos”, afirma Ferreira.
A Selic já caiu 1,25 ponto percentual em 2026, e o Focus projeta mais 0,50 ponto até dezembro, o que levaria a taxa a 13,25% ao ano. A expectativa é que a Selic caia a 12% até o fim de 2027 no próximo ano e a 10,50% em 2028.
Embora a perspectiva seja de que a taxa permaneça alta, a pesquisa identifica intenção de diversificação em outras classes. A renda variável aparece entre as prioridades de médio prazo, com 36% das entidades planejando aumentar a alocação em 36 meses.
Uma das mudanças observadas dentro da renda variável é o avanço da gestão passiva via ETFs, cuja participação passou de 15% em 2013 para 36% em 2026. Para o diretor da Abrapp, a estratégia tem um apelo maior para os fundos de pensão pela facilidade de operação e redução de custos.
“A gestão via fundos passivos é mais barata, mais fácil de explicar o resultado é mais simples de operar também. O ETF já é o pacote completo”, diz Ferreira.
O investimento no exterior lidera os planos de aumento de alocação: 50% das entidades pretendem ampliar a exposição nos próximos 12 meses, percentual que chega a 53% no horizonte de três anos.
O histórico, porém, mostra que as projeções não são garantia de mudança nas carteiras. Na comparação entre as intenções declaradas em 2023 para os três anos seguintes e a alocação efetivamente observada em 2026, apenas duas das seis classes avaliadas seguiram a direção prevista: renda fixa e investimentos no exterior.
A participação da primeira aumentou de 79,4% para 86,2%. Já a segunda, registrou aumento, mas segue com participação mínima nas carteiras: a exposição internacional subiu de cerca de 1% para 1,9% nos últimos três anos.




