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A história da migração de agricultores brasileiros ao Paraguai

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A recente crise diplomática entre Brasil e Paraguai passa longe do mundo dos negócios. No campo econômico, o interesse das empresas brasileiras em operar no país vizinho é crescente, estimulado por vantagens comparativas em custos, mão de obra e impostos.

O aspecto tributário é um dos mais citados por quem atua no Paraguai. “Tem questões que chamam investidor, como a parte burocrática e tributária mais simples. E segurança para investimento de longo prazo, pelo governo pró-negócios”, explica Eduardo Marrey, diretor comercial da BrasilAgro, empresa de terras e produção agropecuária com operações no Paraguai desde 2012.

Marcos Petean, CEO da Gênica, reitera a maior segurança jurídica: “A bagunça da fronteira não reflete o que é o Paraguai”. A decisão da empresa de biológicos de abrir uma frente no país, há quatro anos, levou em conta alguns desses diferenciais.

“É uma agricultura competitiva, boa logística e solo e clima parecidos com o Paraná na zona mais desenvolvida. E a questão cultural muito próxima: a gente fala português tanto com o produtor quanto com o distribuidor.”

Segundo ele, o risco de inadimplência é similar ao do Brasil, mas as garantias são melhores. O “pagaré”, título de crédito similar à nota promissória, é amplamente difundido nas compras de insumos.

“Um ‘pagaré’ de alguém que tem lastro vale muito. Se não pagar, você executa e toma qualquer coisa, de dinheiro em caixa a terra”, afirma Petean.

O aspecto fiscal também conta. Um levantamento da Reland, startup especializada em terras, destacou que o Paraguai tem Imposto sobre Valor Agregado de 10%, com um regime de 1,5% sobre o ganho em operações de transferência de imóveis.

O imposto de renda é de 15%, inclusive para não residentes. E a Lei de Maquila isenta impostos de importação para empresas que visam a exportação. A legislação vem sendo usada por empresas com plataforma binacional, como a Inpasa, que importa óleo térmico de milho do Brasil para produzir biodiesel no Paraguai para exportação.

O custo trabalhista é de 30% a 40% abaixo do Brasil, segundo especialistas.  E há ainda as oportunidades do Mercosul, a taxa de juros em 5,5% (contra dramáticos 14,25% no Brasil) e o custo da energia elétrica. No Brasil, o quilowatt-hora residencial custa cerca de R$ 0,73; no Paraguai, cerca de R$ 0,33.

Com custos menores e crédito mais barato, as margens são melhores, o que incentiva a adoção de tecnologias por parte do agricultor, diz André Kraide Monteiro, CEO da Agrivalle, empresa brasileira de bioinsumos que teve uma participação comprada pela Agrihold em março.

“Os agricultores têm apetite maior por tecnologia. Acredito que a curva de adoção de bioinsumos vai ser mais rápida do que no Brasil, pois foi assim com outras inovações”, afirma.

Outro ponto destacado pela Reland é que, na conta da startup, o Brasil já reprecificou grande parte de sua fronteira, com uma valorização acumulada de 113% no preço das terras entre 2019 e 2024, enquanto o Paraguai ainda não passou por esse processo.

A empresa tem sugerido investir no país. “A tese é diversificar para novas geografias, regimes de custo e opções de estruturação patrimonial”, diz o CEO Júlio Mühlbauer.

150 anos de história

Atualmente com novos atores, a migração de agricultores brasileiros para o Paraguai — apelidados de brasiguaios — tem mais de 150 anos de história, com reflexos decisivos no volume e na eficiência em cadeias como a soja e a pecuária.

Herib Caballero Campos, historiador da Universidad Nacional de Pilar, explica, que da época colonial ao início do século XX, a produção no Paraguai foi extrativa. Os focos eram madeira e hortaliças, como erva-mate, com alguma exportação para a Argentina.

Ele vê quatro grandes fases de migração de brasileiros ao país, todas no embalo do agro. A primeira foi após a Guerra do Paraguai (1864-1870), quando brasileiros começaram a ocupar a região ao norte do rio Apa, hoje parte do Mato Grosso do Sul.

Depois, na década de 1920, as pioneiras tentativas de introduzir cultivos de algodão também atraíram brasileiros. Nos anos 1950 e 1960, o país criou projetos para diversificar a produção, como o Plano Nacional do Trigo, com foco na zona central.

“Nessa época, a ditadura de Alfredo Stroessner começou a vender propriedades da empresa La Industrial Paraguaya visando colonizar o Alto Paraná. Com isso, muitos riograndenses e paranaenses foram buscar terras mais baratas”, diz Campos.

Segundo ele, os brasileiros se dedicaram ao que já conheciam: a soja. “É quando há uma migração mais relevante e o desenvolvimento de toda a zona fronteiriça.” A via foi de mão dupla, diz o historiador. “Os brasileiros trouxeram um agro mais moderno e mecanizado, com mais recursos. E isso significou melhor produtividade.”

Mais recentemente, entre os anos 1990 e 2000, as cadeias da soja e da pecuária se expandiram, inclusive com a chegada de frigoríficos brasileiros, como JBS e Minerva. Essa onda gerou um crescimento de volume e receita. A soja, com 3,6 milhões de hectares, e a pecuária, com 12,8 milhões de cabeças, são as principais atividades.

O milho também tem crescido, e há um relevante movimento para elevar a produção de carne suína, diz Campos.

Ele lembra que o Paraguai tem uma das distribuições de terra mais desiguais do mundo: cerca de 8% dos proprietários detêm mais de 90% da superfície produtiva. Por isso, o arrendamento é predominante, com muitos pequenos produtores não proprietários.

Hoje, os brasileiros respondem por 33,2% dos imigrantes residentes no País, segundo o Instituto Nacional de Estadística. Em 2025, eles lideraram as concessões de pedidos de residência, com 20.852, segundo a Dirección Nacional de Migraciones.

O último censo paraguaio, em 2022, identificou 15.879 produtores rurais brasileiros. Mas pesquisadores estimam que eles sejam até 25% dos produtores no país.

Segundo o historiador, a convivência é “relativamente harmônica”, salvo divergências pontuais — muitas delas em casos de disputa por terras reclamadas por indígenas. “Em algumas festas em cidades como Naranjal e Santa Rita, vêm artistas do sertanejo brasileiro, não de música paraguaia. A imprensa às vezes reclama”, diz Campos.



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