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Quem faz o preço do milho no Brasil, segundo a Cofco

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O jogo virou no milho. Historicamente dedicada à exportação, a oferta adicional tem sido cada vez mais consumida internamente, graças ao fenômeno do boom do etanol de milho nos últimos anos. Com isso, a exportação já “não faz mais preço” no cereal e tende a ser cada vez mais coadjuvante, segundo Gustavo Trevizoli, diretor de originação da Cofco International, uma das maiores tradings de grãos do mundo.

“A capacidade de esmagamento [de milho foi] construída nos últimos dez anos, a da soja demorou 50. Isso está trazendo uma nova dinâmica: a exportação já não faz mais preço no milho. Quem faz, principalmente nas regiões convergentes com as plantas, é a indústria de etanol e DDG”, disse Trevizoli em um painel durante o evento The New Agro, realizado nesta terça-feira pela Grão Direto, em São Paulo.

São as usinas de etanol de milho quem têm incentivado novas áreas de milho segunda safra — que já responde por quase 80% do total no País, segundo a Conab. Como consequência, “a exportação começa a ficar como um coadjuvante nessa história”, acrescentou o executivo da Cofco.

“O milho hoje sai mais por necessidade de operacionalizar ativos logísticos. Porque no terceiro e no quarto trimestres, a soja diminui bastante o volume, por sazonalidade. Para ter utilização desses ativos, precisa capturar milho. Está mais ligado a isso do que a fundamentos econômicos favoráveis.”

Para o diretor de originação da Cofco, a mudança é “muito positiva para o Brasil e o produtor”, e a tendência tende a cada vez mais determinar as margens na cadeia do cereal.

Riscos

O sucesso do modelo de produção voltado ao consumo interno, no entanto, vai depender do motor das usinas de etanol de milho — que precisa se manter aquecido.

Clayton Melo, mediador do painel e especialista em commodities, energia e negócios de dados, ressaltou que o mandato de mistura do biocombustível pode não crescer o suficiente, e pode sobrar etanol no curto prazo.

“Tenho preocupação gigantesca com a quantidade de etanol que está entrando no mercado. Não tenho convicção de que chegaremos nesse nível de demanda, e essa explosão em algum momento precisará desacelerar”, disse.

E complementou: “Por mais que tenha projetos para usar em navegação e SAF, vai ter muito mais etanol do que demanda em um período de tempo muito próximo”. E isso tende a ter consequências negativas, afirmou, “especialmente para o pessoal da cana, cuja margem é maior, ainda mais se o açúcar tiver preços baixos”.

No mesmo painel, dois participantes levantaram potenciais riscos ao setor sob essa nova dinâmica: a desaceleração econômica na China e, no Brasil, eventuais atrasos nos mandatos de mistura obrigatória do etanol na gasolina.

Fernando Berardo, head de Commodities da empresa de dados Barchart, destacou como outro fator de risco a desaceleração da demanda da China, que ainda é uma grande compradora do milho brasileiro, embora tenha diminuído essa participação nos últimos anos.

“A previsão para o PIB chinês é de crescimento de 3,6% em 2027, contra 4,7% neste ano. Um ponto percentual a menos, é bastante. E no mundo a estimativa de PIB também é menor. Tem uma demanda menor”, disse Berardo.

Além disso, afirmou, a estimativa de estoque final para o milho em 2026 ficou mais apertada, e isso tende a afetar os preços de maneiras ainda a conferir. “Hoje, Chicago fechou de novo acima de US$ 5 o bushel [cerca de US$ 11,80 a saca], que é o preço que o produtor americano gosta de vender. Tem que ver para onde o preço vai.”



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